quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Os Holandeses no Ceará
Paulo Sérgio Barros·
Para compreendermos o sentido da ocupação holandesa no Ceará
no século XVII, é preciso que voltemos no tempo para sabermos um pouco da
história da Europa, especificamente de Portugal e Espanha.
Em 1568, dom Sebastião assumiu o trono
português aos 14 anos de idade. Dez anos depois, ainda solteiro, morreu na
batalha de Alcácer Quibir, contra os
muçulmanos no norte da África. Como não deixou herdeiros, quem assumiu o trono foi seu
tio-avô, o cardeal dom Henrique, que morreu pouco depois, em 1580. Sem
herdeiros para o trono português, o rei da Espanha, Felipe II reivindicou para
si o trono português argumentando que era casado com dona Maria, filha de Dom
João III de Portugal, avô de dom Sebastião.
Com
o apoio da nobreza, do alto clero e de parte da burguesia portuguesa, o
exército espanhol invadiu Portugal e colocou no trono o novo rei. Em 1581, pelo
Tratado de Tomar instaurava-se União
Ibérica, governada por uma monarquia dual que reinaria sobre os dois países até
1640.
A
União Ibérica teve repercussões importantes para o Brasil, colônia portuguesa
na América. Uma delas foram as hostilizações que Portugal, agora sob domínio
espanhol, passou a sofrer das potências européias inimigas da Espanha,
notadamente a Holanda com quem a Espanha estava em guerra.
Os
holandeses invadiram e ocuparam as regiões brasileiras produtoras de açúcar
durante 24 anos (1630-1654), pois pretendiam continuar dominando o comércio
mundial desse produto, domínio que a Espanha também pretendia. As primeiras
tentativas holandesas foram na Bahia em 1624 e 1625. Expulsos da Bahia,
voltaram sua atenção para Pernambuco, a maior e mais rica região produtora de
açúcar do mundo. Estabelecendo-se em Pernambuco, os holandeses conquistaram
vasta área que hoje corresponde parte dos estados de Sergipe, Alagoas,
Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, parte do Litoral do Ceará e São Luís
do Maranhão.
Os
senhores de engenho do Nordeste não reagiram à ocupação holandesa. Para eles o
que interessava era ganhar dinheiro com a venda do açúcar, quer fosse para
portugueses ou holandeses. Além do mais os holandeses fizeram empréstimos aos
senhores de engenho para que eles reconstruíssem as propriedades destruídas
pela guerra. Em 1637, Johann Mauritius van Nassau (Maurício de Nassau) foi
nomeado governador das terras holandesas no Brasil. O Novo governador, além de
manter a aliança com os senhores de engenho, trouxe na sua comitiva 46 artistas,
cientistas, artífices e sábios para estudar e retratar a natureza do Brasil.
Outro aspecto que marcou a administração de Nassau foi o embelezamento do
Recife, a capital do Brasil holandês, através da construção de pontes e de
obras sanitárias.
Os holandeses chegam ao Ceará
Os holandeses fizeram duas investidas no
sentido de dominar o Ceará. A primeira foi em 1637, comandada por Jorris
Garstman que dominou a pequena guarnição portuguesa do Fortim de São Sebastião,
tendo o apoio do chefe indígena Algodão. Nesse primeiro momento os holandeses
visavam a conquista da ilha de São Luís do Maranhão e a conquista do Ceará
serviria como um ponto de apoio para um futuro ataque ao Maranhão. Contudo, em
primeiro lugar, eles objetivavam explorar as salinas do litoral cearense, para
o qual usaram a mão –de obra indígena.
A aliança do chefe indígena com os holandeses
não durou muito. A violação dos acordos, o uso da violência e exploração da
força de trabalho, pôs os índios em estado de tensão, levando-os a destruir as fortificações
construídas e assassinar Moris de Junge, o comandante que havia ficado no
Ceará, e toda a sua guarnição no forte se São Sebastião, em 1644, o qual havia
sido edificado na Barra do Ceará, em 1612, pelo primeiro colonizador português
do Ceará, Martim Soares Moreno.
Até 1649 nem portugueses nem holandeses
dominaram o Ceará. Neste ano Matias Beck retorna à região e restabelece o
domínio holandês até 1654 quando foram expulsos do Brasil.
A vinda de Matias
Beck era com o objetivo de procurar supostas minas de prata, talvez ouro, que
seriam de grande importância para sanear as finanças do governo holandês no
Brasil.
Beck estabeleceu-se numa colina, próxima ao
riacho Pajeú, onde hoje é o quartel general da 10ª Região Militar no
centro de Fortaleza. Ali construiu o forte Schoonenboch, em 1649, nome dado em
homenagem ao presidente do Alto Conselho Holandês no Brasil, Walter van
Schoonenboch.
Na expedição de Beck havia
especialistas, prateiros, mineiros e ourives e um religioso protestante para
cristianizar os índios. As minas foram procuradas ao norte da serra de
Maranguape e na Ibiapaba. Somente no
primeiro lugar encontrou-se prata. Contudo, em quantidade mínima.
Em 1654 os portugueses reconquistam o
Nordeste holandês e se reestabelecem no Ceará, rebatizando o forte holandês que
passou a se chamar Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. No local aos poucos
formar-se-ía um pequeno povoado, com o mesmo nome, que daria origem a de
Fortaleza.
Os holandeses e os índios
As estratégias de contato dos holandeses com os índios eram semelhantes às
práticas portuguesas. Uma dessas estratégias era manter alianças com os nativos
e para isso utilizavam todos os meios. Os holandeses já usavam essa tática bem
antes da ocupação do Nordeste brasileiro, já nos encontros costeiros com os
índios, obtendo informações sobre a região e suas riquezas minerais, levando
alguns à Holanda onde aprenderam a falar e escrever holandês e posteriormente,
seriam de grande importância no ofício de intérpretes, intermediadores e outros
serviços durante o domínio holandês. Pedro Poti e Antônio Paraupaba teriam sido
dois índios que estudaram na Holanda com esse objetivo. Mesmo que o governo
holandês reclamasse da resistência desses índios à cultura holandesa, acusando-os
de comportamentos ''perversos e selvagens”.
No governo de Maurício de Nassau havia a preocupação em atrair e
conservar a amizade dos índios, reconhecendo a importância desses aliados para
ao domínio do Nordeste. Na prática, os holandeses exploraram e escravizavam os
índios, causando reações nativas, muitas vezes fatais.
O nível de abusos e exploração que portugueses e holandeses cometiam com
os índios tinha a mesma intensidade. A liberdade que o governo holandês
propagava para índios não surgia como um direito fundamental conquistado, mas
como simples concessão, tolerância e benevolência dos dominantes. A liberdade
indígena não existia. Se os holandeses foram mais tolerantes, se Maurício de
Nassau foi um administrador liberal, concedendo direitos às minorias indígenas
isso não os levou a se relacionar com os nativos diferentemente dos
portugueses, pois viam-nos como seres inferiores e passíveis de serem
utilizados ao bel prazer dos interesses econômicos.
No Ceará, o contato entre os nativos e os holandeses foi marcado pela
cobiça, violência e exploração, similares às portuguesas. Do mesmo modo, foram
as estratégias de acordos e amizades, muito importantes para os holandeses para
moverem-se em uma região desconhecida e perigosa e até fatal, quando a cobiça e
a violência prevaleciam sobre as relações amistosas com os nativos, ou quando
as circunstâncias coloniais levavam os indígenas a romperem as alianças. Um
exemplo nesse sentido é o caso do índio Algodão, cuja aldeia era “amiga” dos
portugueses e que se tornou aliada dos holandeses em 1637, para tomar o forte português
no Ceará.
Várias outras aldeias locais foram contatadas e aos seus chefes foram
enviadas faquinhas de ferro, tesourinhas etc., visando atraí-los, torná-los
aliados. De certa forma, os holandeses atraíram muitos, outros se aproximaram e
isso foi habilmente manipulado pelos comandantes. Faltou-lhes, contudo,
habilidade para manter as alianças. Em 1642, os indígenas da Ibiapaba, que até
então tinham sido seus aliados, acompanhando-os na guerra do Maranhão contra os
portugueses, insatisfeitos com os maus tratos e por não serem devidamente pagos
pelo trabalho, destruíram as benfeitorias e assassinaram os soldados e o
comandante holandeses.
O próprio governo holandês reconhecia mais tarde que a reação dos índios
do Ceará devia-se ao desrespeito aos seus costumes, por não se cumprir os
acordos e por não serem pagos pelos trabalhos realizados. Erros que eles
tentaram corrigir mais tarde com a remessa de tecidos para pagar aos índios do
Ceará que estavam na guarnição do Maranhão.
Gideon Moris de Jonge afirmava que os índios eram muito exagerados quando
afirmavam que havia muito âmbar gris1
no Ceará. Contudo, continuava a atraí-los
o melhor que podia, dando-lhes comida, bebida e presentes. Apesar dos atrativos
agrados, os índios voltavam sempre com o pretexto de que nada haviam encontrado.
Acreditava Gideon, porém, que havia âmbar e que os índios o encontravam,
contudo o levavam a outros lugares, visto que eles se movimentavam durante todo
o dia, correndo acima e abaixo sem seu conhecimento e afirmavam que nada
fizeram para os portugueses e que nada fariam para os holandeses, pois a terra lhes
pertencia. Quanto ao trabalho nas roças, eles não o faziam sem o pagamento.
Em 1649, Matias Beck também usa índios da região para
encontrar e explorar supostas minas de prata. Beck os atrai com presentes de
biscoitos e vinhos. Assim como os portugueses, os holandeses nada faziam sem
consultar os índios aliados, conhecedores da língua e costumes dos outros
grupos cearenses, da geografia e dos produtos que economicamente interessavam
aos colonizadores.
Alguns chefes indígenas aproximaram-se dos holandeses
com satisfação e manifestando amizade, outros com receio. Todos movidos por
seus interesses. A cobiça holandesa pelas supostas minas existentes no Ceará
logo tornou-se muito clara para os nativos, motivo para barganhar ferramentas,
comida, bebida e vestimentas: a exemplo do índio Caraya, o qual foi presenteado
com sapatos, chapéu, camisa, meias e uma espada, em troca de informações sobre
as minas; e do chefe João Algodão que depois de ter reiterado sua amizade a Beck, mostrou-se
insatisfeito com os presentes recebidos e achando-se mais importante, por
ter o maior número de índios sob seu comando, recusou-os e exigiu do holandês
um vestido vermelho ou escarlate, bordado a ouro ou prata.
Para Beck, a aproximação com os chefes indígenas
significava segurança, informações e vantagens futuras. Os chefes, por sua vez,
exigiam, barganhavam, escondiam, mentiam e chantageavam os holandeses com frequência,
criando voluntariamente engodos e informações erradas para desorientá-los,
trocando as informações sobre o local das minas.
Beck sabia que os nativos usavam a política
“pacificadora” e o desejo de dar informações para conseguir presentes. Por
isso, mantinha sua tolerância e paciência e acreditava em todas as informações
dadas por muitos informantes, seguia todas as pistas apresentadas, dava todas
os presentes exigidos pelos indígenas e aceitava inclusive a recusa dos índios
em serem mensageiros ou a cultivarem roças para o sustento dos holandeses.
Quando os índios souberam da expulsão dos holandeses
do Brasil, rapidamente manifestaram o que Beck temia. Apoderaram-se das roças,
escravos e demais holandeses e assassinaram boa parte dos soldados. O restante
da guarnição só foi salva graças aos canhões e o pequeno forte que a protegeu
dos antes "amigos" índios, enquanto os portugueses chegavam e os
salvariam.
O resultado dos conflitos entre portugueses e holandeses, em Pernambuco,
foi o que determinou de que lado os índios ficariam, ou seja, para onde as
circunstâncias coloniais lhes fossem mais favoráveis. De fato, eles temiam uma
reação dos portugueses devido às alianças que haviam mantido até então com os
holandeses. Assim, a necessidade de se ajustarem à nova situação, isto é, à
reconquista portuguesa do Ceará se tornou necessária.
Referências
BARROS, Paulo Sérgio. Confrontos Invisíveis:
Colonialismo e Resistência no Ceará. São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secult,
2002.
_______, Cultura e Resistência Indígena no Ceará
Colonial (1603-1720). Monografia de Bacharelado. Departamento de História, Universidade
Federal do Ceará, 1992.
BUENO, Eduardo. Brasil: Uma História. São Paulo: Ática,
2003.
CÂMARA, José Aurélio. Aspectos do Domínio Holandês no
Ceará. Revista do Instituto do Ceará, Tomo 70,
Editora do Instituto do Ceará, 1956.
MELLO. José Gonçalves de. Tempo dos Flamengos. Rio de
Janeiro: José Olímpio, 1947.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
PETER BURKE - Historiador Inglês
Globo Universidade - Qual é a função do historiador no século XXI?
Peter Burke – A mesma de sempre: ajudar as pessoas a se colocarem dentro da história, porque estamos vivendo a história em cada momento.
GU - Como você acha que será escrita a história da atualidade brasileira?
PB – Não penso que será uma questão muito complexa, embora escrever a história sempre represente um desafio. O importante é conseguir enxergar os fatos com olhos de historiador. Mas esta é uma recomendação válida para pesquisadores e estudantes de qualquer país, sejam da Inglaterra ou do Brasil.
In: http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2013/08/em-entrevista-peter-burke-comenta-funcao-do-historiador-no-seculo-xxi.html. Acesso em: 07/02/2014.
Globo Universidade - Qual é a função do historiador no século XXI?
Peter Burke – A mesma de sempre: ajudar as pessoas a se colocarem dentro da história, porque estamos vivendo a história em cada momento.
GU - Como você acha que será escrita a história da atualidade brasileira?
PB – Não penso que será uma questão muito complexa, embora escrever a história sempre represente um desafio. O importante é conseguir enxergar os fatos com olhos de historiador. Mas esta é uma recomendação válida para pesquisadores e estudantes de qualquer país, sejam da Inglaterra ou do Brasil.
In: http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2013/08/em-entrevista-peter-burke-comenta-funcao-do-historiador-no-seculo-xxi.html. Acesso em: 07/02/2014.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Escravidão e Abolicionismo no Ceará
A prática da escravidão negra no Ceará não
foi tão intensa como em outras partes do Brasil, notadamente em Pernambuco,
Bahia e Rio de Janeiro. Contudo, o historiador Raimundo Girão afirma que quando
Pero Coelho de Souza esteve na Serra da Ibiapaba em 1604, noticiou a presença
de alguns negros entre os índios. Barros (2002), a propósito do Ceará holandês,
comenta que Matias Beck, que esteve no Ceará entre 1649 e 1654, possuía escravos,
e que um de seus negros infiltrou-se entre os índios a quem Beck ordenou a se
comunicar com os nativos somente na língua indígena para obter o máximo de
informações dos índios sobre o espaço e a economia da região.
Porém, mais tarde africanos foram trazido
para o Ceará para servir os governadores do período colonial; outros vieram com
os primeiros colonos oriundos da Bahia e Pernambuco. Pedro Alberto de Oliveira ressalta que a
primeira entrada organizada de escravos negros no Ceará ocorreu durante a curta
existência da Companhia das Minas de S. José dos Cariris, iniciada em 1756, e
que explorou ouro na região sul da capitania, usando 69 escravos africanos.
Posteriormente o trabalho escravo foi incorporado ao setor produtivo estando
presente na pecuária, na agricultura, em serviços especializados, nos serviços
domésticos, ou ainda como escravo de aluguel e de ganho.
Contudo, o tráfico de negros para Ceará
era pequeno e indireto; fazia-se, sobretudo pelos entrepostos de São Luís, Recife,
Salvador e Rio de Janeiro, e eram da etnia Banto, originários de Angola e
Congo.
A pecuária e o algodão, o motor da
economia colonial cearense, foram atividades que usaram a mão-de-obra escrava,
mesmo que não tenha sido intensivamente. Na pecuária porque além de facilitar a
fuga dos escravos tinha um caráter de mobilidade. Para o cultivo de algodão, praticado num certo
período do ano, não era compensador o uso da mão-de-obra africana. Optava-se
pelo meeiro e agregado. Os cativos iam mais para os trabalhos domésticos.
Em núcleos urbanos como Fortaleza, era
normal anúncios de jornais oferecendo serviço de negros que formavam uma
mão-de-obra mais especializada como pedreiros, marceneiros, alfaiates,
sapateiros entre outros. O Trabalho escravo ajudava, portanto, na composição da
renda da família do senhor, não apenas pelo seu valor, mas como escravo de
aluguel, como escravo de ganho e até como prostitutas.
A presença de escravos africanos na
economia e sociedade cearense não foi inexpressiva como naturalmente se pensa.
Exemplo ilustrativo nesse sentido é que no início do século XIX, segundo
Eurípedes Antônio Funes, a presença de afro-brasileiros no Ceará já era significativa,
onde negros e pardos libertos somavam 60,7% de uma população de 77.375
habitantes. Neste universo a população negra e parda cativa, somava 12. 254
pessoas, ou seja, 15,8% da população. Em 1818, no censo apresentado pelo
governo provincial, numa população de 125.878 habitantes; os pretos e mulatos
livres somavam 70.038 (56%) da população.
Resistência
A resistência negra no Ceará também foi
significativa. Há registros de que os senhores davam aos seus escravos
tratamento de condenação à morte na forca, enterravam-nos vivos,
espancavam-nos, violentavam-nos sexualmente, queimavam-nos, estrangulavam-nos,
sem contar as amputações de seios, de orelhas, de dedos, vazamento de olhos
etc. e punição pelas autoridades públicas.
O negro reagiu a tudo isso com fugas,
abortos, assassínios dos senhores, revoltas e formação de agrupamentos de
negros. No Icó, em dezembro de 1867, escravos com armas nas mãos tentaram sua
liberdade, tendo os seus planos frustrados pelas ações do Delegado de polícia.
No Ceará há fortes indícios de quilombos na Serra do Pereiro, onde se
refugiavam escravos do Ceará e das províncias vizinhas do Rio Grande do Norte,
Paraíba, Pernambuco e até mesmo da Bahia – e, ainda, na Serra Grande, para onde
acorriam escravos cearenses e do Piauí e Maranhão. Vários deles foram
apreendidos no município de Viçosa. Mesmo na periferia de Fortaleza são
identificados vários lugares de “acoutamento” de escravos fugidos como em
Tauape e Parangaba.
Janote Pires (2009, p. 56 - 57)
afirma, no livro Festas de Negros em
Fortaleza: territórios, sociabilidade e reelaborações (1871-1900), que
“longe de ser um elemento passivo e estático, o cativo muitas vezes encontrava
forma de resistência ao controle do senhor, particularmente na exploração do
trabalho”. O autor relata o caso de Gonçalo, escravo de ganho de Joaquim da
Silva Santiago que se embebedava e se esquivava de seus afazeres de escravo.
Pires também ressalta que os escravos ignoravam e agrediam senhores, e
encontrar-se com outras pessoas para diversões eram práticas sociais
transgressivas frente às normas de então”.
Anúncios de jornais da época, publicam
notícias de fugas e hábitos que iam de encontro à política de disciplinamento
que estava em voga pela administração municipal, particularmente em áreas mais
valorizadas, como a do passeio público (PIRES, 2009, p. 59).
Abolicionismo
O movimento abolicionista no Brasil foi essencial
para o fim da escravidão. O abolicionismo no Ceará foi uma das causas do fim da
escravidão na então província. As várias entidades abolicionistas eram
compostas por intelectuais e estudantes, liberais, elementos ligados à classe
média e à elite. Esses grupos desejavam o fim da escravidão sem grandes
mudanças na ordem social vigente, apelando para o espírito humanitário,
filantrópico e altruísta dos homens. Não se tem notícias de grandes conflitos
entre abolicionistas e escravistas, a não ser os grandes debates através dos
jornais da época. Algumas das principais entidades abolicionistas foram:
- 1879 –
Sociedade Perseverança e Porvir (composta por comerciantes que se propunham a
comprar cartas de alforria para os cativos).
- 1880 –
Sociedade Libertadora Cearense (Através de seu jornal O Libertador, defendia a
idéia de libertar escravos fosse qual fosse o método e formava uma opinião
pública contra a escravidão).
- 1882 –
Centro Abolicionista (Defendia a libertação sem a perturbação da ordem moral,
econômica e social).
- 1880 –
Sociedade das Senhoras Libertadoras (Grupo
feminino)
Houve também a participação popular no ano de 1881. Como a condução dos negros aos navios de transporte de passageiros era feita por jangadeiros, um grupo de abolicionistas teria convencido os jangadeiros a não mais fazer o trabalho. Nos dias 27, 30 e 31 de janeiro daquele ano os jangadeiros (dentre eles estava Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar), aderiram ao movimento e fizeram greve. Houve manifestação popular no porto do Mucuripe contra a embarcação de 38 escravos, que foram libertados na noite do dia 31. Em agosto do mesmo ano tentou-se, clandestinamente, embarcar duas negras. Nova vitória dos abolicionistas. As cativas foram seqüestradas e soltas. Daquela data em diante não se tem mais notícias de embarque de escravos no porto de Fortaleza.
No campo jurídico as ações também foram importantes. Entre 1850 e 1852 o deputado Pedro Pereira da Silva apresentou vários projetos à Câmara Geral do país objetivando alforriar os negros nascidos até então, sem sucesso. Em1868, a Assembléia
Provincial do Ceará aprovou o ato legal que autorizava o governo a gastar a
quantia de 15 contos de réis com a libertação de 100 escravos nascidos
anualmente. Nos anos de 1881 e 1882, outorgou-se uma lei, aumentando os
tributos sobre os escravos residentes na província ou sobre quem “exportado” para
outras regiões do Brasil. Em 19 de outubro de 1883, o presidente da província
Sátiro de Oliveira Dias, sancionava lei que abolia definitivamente a escravidão
no Ceará. Em 25 de março de 1884
a lei foi promulgada. Antes dessa lei, porém, Acarape,
atual Redenção, libertou seus escravos (aproximadamente 300) e, primeiro de
janeiro de 1883. Fortaleza libertou seus 1273 cativos a 24 de maio do mesmo
ano. Contudo, isso não significa que
toda a província do Ceará tenha libertado seus escravos. Há notícias de que em
fevereiro de 1886, no município de Milagres, havia 298 escravos.
Houve também a participação popular no ano de 1881. Como a condução dos negros aos navios de transporte de passageiros era feita por jangadeiros, um grupo de abolicionistas teria convencido os jangadeiros a não mais fazer o trabalho. Nos dias 27, 30 e 31 de janeiro daquele ano os jangadeiros (dentre eles estava Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar), aderiram ao movimento e fizeram greve. Houve manifestação popular no porto do Mucuripe contra a embarcação de 38 escravos, que foram libertados na noite do dia 31. Em agosto do mesmo ano tentou-se, clandestinamente, embarcar duas negras. Nova vitória dos abolicionistas. As cativas foram seqüestradas e soltas. Daquela data em diante não se tem mais notícias de embarque de escravos no porto de Fortaleza.
No campo jurídico as ações também foram importantes. Entre 1850 e 1852 o deputado Pedro Pereira da Silva apresentou vários projetos à Câmara Geral do país objetivando alforriar os negros nascidos até então, sem sucesso. Em
Fatores responsáveis pelo declínio do escravismo no
Ceará
Os historiadores
apontam vários fatores como responsáveis pelo fim da escravidão no Ceará.
Dentre eles estão: a resistência que se manifestava através de fugas, abortos,
assassínios dos senhores, revoltas e formação de agrupamentos de negros; a
pouca importância do trabalho escravo na economia local; a venda de escravos
para outras províncias por parte de seus senhores, sobretudo na época das secas,
como no grande seca de1877 que três mil deles teriam sido vendidos; e a das
entidades abolicionistas.
Comunidades negras no Ceará atual
Existem hoje no Ceará vários núcleos de
população negra nos centros urbanos, bem como comunidades negras rurais. Há
famílias em Fortaleza que agregam de 20 a 30 membros em até cinco casas
próximas. Encontram-se essas pequenas comunidades no Dendê, no Trilho
(Aldeota), no Jardim Iracema, no Quintino Cunha e no Conjunto Alvorada. Há
agrupamentos negros em Tururu (Conceição dos Caitanos e Água Preta), que
apresentam mais de 200 pessoas na área, Goiabeiras (Aquiraz), Colibri em Tauá e
Bastiões (Iracema). Comunidades similares são encontradas do Cariri e na Serra
Grande.
Referências
BARROS, Paulo
Sérgio. Confrontos Invisíveis;
colonialismo e resistência indígina no Ceará. São Paulo: Annablume;
Fortaleza: Secult, 2002.
FARIAS,
Aírton de. História do Ceará. Dos Índios
à geração Cambeba. Fortaleza: Tropical, 1997.
FUNES,
Eurípedes Antônio. Negros no Ceará. In; SOUZA, Simone de (Org.) Uma nova história do
Ceará, Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002.
MARQUES,
Janote Pires. Festas de Negros em
Fortaleza: territórios, sociabilidade e reelaborações (1871-1900. Fortaleza:
Expressão Gráfica, 2009.
OLIVEIRA,
Pedro Alberto. As Origens da Escravidão
no Ceará. In: Revista Instituto Histórico do Ceará,
Fortaleza, tomo 99, jan./dez.1979.
ORIÁ, Ricardo
et al. Construindo o Ceará.
Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 1997.
Atividades
01 - De acordo com o texto, o fato da escravidão
negra não ter sido extensa no Ceará foi em decorrência, sobretudo, dos fatores
econômicos. Explique essa afirmação.
02 – Escreva
um texto comentando as formas de resistência africana à escravidão.
03 – O escravo
urbano desenvolvia atividades diferentes daqueles que estavam inseridos nas
atividades econômicas mais importantes como: pecuária e agricultura. Comente
sobre as atividades desses escravos urbanos e qual a importância econômica
deles para os seus senhores.
04 – Em sua
opinião o que a presença de comunidades negras no Ceará atual nos revela em
termos históricos.
05 – Conforme
Joaquim Nabuco a escravidão “é a posse, o
domínio, o seqüestro de um homem – corpo, inteligência, forças, movimentos,
atividades – só acaba com a morte...”.
Analise os
dois textos abaixo e produza um texto à luz do que diz Joaquim Nabuco.
Escravo Matheus, 25 anos, mulato claro, sem motivo algum para fugir, visto que era
livre andar e trabalhar na rua quando lhe parecia (...). gratifica-se a quem
der delle exacta notícia ou o troxer à casa, sendo dispensável qualquer
violência – Fenelon Balmicar da Cunha.
In:
FUNES, Eurípedes Antônio. Negros no Ceará
Vende-se uma escrava creoulla, bem prendada, a saber: boa
cozinheira, entendendo de marcas, costuras, engomados, etc. Com 28 annos de
idade. Quem a pretende diraja-se ao abaixo assignado João Domingos Fontes.
Jornal A Constituição, de 17/12/1865.
In: ORIÁ, Ricardo et al. Construindo o Ceará.
|
______________________
[1] Professor. Mestre em História pela
Universidade Federal de Pernambuco. Tem e artigos e livros publicados sobre
história do Ceará e Educacão Holística. Contato: psergio.barros@gmail.com.
domingo, 20 de outubro de 2013
Modelo de Artigo
ESTRUTURA DO TRABALHO
1 - Título do trabalho (P. ex.: As escolas dos Índios Tapeba)
2 - Nome do autor do artigo, alinhado a direita.
3 – Nota de rodapé com um mini currículo do autor do texto ( Ex.:
Aluno do 3º Ano do Ensino Médio Profissionalizante da EEEP Maria José Medeiros).
4 - Introdução
Mínimo de três parágrafos descrevendo os objetivos do trabalho, seu interesse pelo tema, as fontes que serão usadas para a pesquisa e outras informações que julgar relevante.
5 - Desenvolvimento
Primeiro tópico
- Pesquisar e ler três autores (livro ou artigo) que escreveram sobre o seu tema e escrever sobre as ideias que eles discutiram sobre o tema. Trata-se de uma discussão do tema, mais teórica, mostrando como o tema foi visto por outros e como vai ajudar a você a desenvolver seu texto.
Segundo Tópico
Você vai pesquisar fontes primárias (documentos): jornal impresso, jornal eletrônico, revistas, fotos, vídeos, sites e escrever a sua conclusão sobre o assunto, inspirado no que outros autores (discutido no primeiro tópico) e o que você viu nos documentos.
6 – Considerações finais
- Mínimo de três parágrafos descrevendo a importância do trabalho, o que aprendeu, o que lhe chamou a atenção, o que foi mais relevante, as dificuldades.
7 – Referências
Citar as fontes de pesquisa usadas (livros, revistas, internet etc.)
Livro, p. ex. [Autor (SOBRENOME, Nome). Nome do livro. Cidade: Editora, ano.]
REIGOTA, Marcos. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 2004.
Artigo de internet, p. ex.
BARROS. Paulo Sérgio. Atmosfera de Valores: O Princípio do Programa Vivendo Valores na Educação. Disponível em: http://www.livingvalues.net/countries/brazil.html. Acesso em 21\11\2011
Texto de internet quando não tem um autor identificado
www. wikipedia.com.v7-tmdhfnf-?27bfgmbno 0,mdffmdkmldm
Outras fontes usadas no trabalho (CDs, Vídeos etc.) veremos em sala de aula como citar nas referências.
RELATO ETNOGRÁFICO
Etnografia - Definição
Coleta direta, o mais minuciosa possível, dos fenômenos que observamos, por uma impregnação duradoura e contínua e um processo que se realiza por aproximações sucessivas. É uma observação direta dos comportamentos sociais a partir de uma relação humana. Exigências: pequenos grupos do cotidiano; estudo da totalidade; estudo do concreto, do completo. É fazer uma abordagem procurando transformar o familiar no exótico e vice-versa. Observar costumes, hábitos, tendências de outros grupos para conhecer a nós mesmos.
” Os estudos etnográficos são uma técnica, proveniente das disciplinas de Antropologia Social, que consiste no estudo de um objecto por vivência directa da realidade onde este se insere”.
Estudo
É a principal fase do processo, onde se realiza o contacto directo …
- Estabelecer empatias com administradores e utilizadores do sistema;
- Realizar observações e entrevistas aos utilizadores do sistema no seu ambiente de trabalho;
- Recolher dados objectivos e subjectivos de modo quantitativo e qualitativo;
- Seguir todas as pistas que surjam durante as visitas;
- Registar todas as visitas.
Análise
Esta fase permite extrair conclusões do estudo já efectuado e, dessa forma, realizar melhoramentos durante todo o processo. Aqui pode incluir-se:
- Compilar todos os dados recolhidos numa base de dados;
- Quantificar os dados e realizar estatísticas;
- Filtrar e interpretar os dados;
- Redefinir os objectivos e o processo utilizado
A palavra “etnografia” deriva da união de dois vocábulos gregos: ethnos ( que significa “povo”) e graphein (que significa “grafia”,”escrita”,”descrição”,ou melhor, “estudo descrito”). Logo, etimologicamente, a etnografia é o estudo descrito de um povo.
Note-se que dizemos “ de um povo “ e não “ do povo”, pois aqui o termo “povo” não é usado no seu significado social ( isto é, não se refere a uma camada social, a uma classe social ) mas sim significando um conjunto de indivíduos unidos entre si por laços comuns de ordem rácica, histórica, cultural, religiosa, social, etc: o povo português, o povo espanhol, o povo brasileiro, etc.
Mais particularmente poderemos dizer que a etnografia é a ciência que estuda e descreve os agregados populacionais. E sendo assim , a etnografia descreve e estuda o povo de um dado país, de uma dada província, de uma dada região, de uma dada comunidade, etc.
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ESTRUTURA DO TRABALHO
Título: (Exemplo) Um olhar sobre a cultura afro-brasileira: a capoeira como espaço de manifestação jovem. (CENTRALIZADO)
Nome do autor: (Exemplo) Adriano José de Oliveira (ALINHADO À DIREITA)
Nota de rodapé com mini currículo do autor: (Exemplo) Aluno do 3º Ano do Ensino Médio Profissionalizante da EEEP Maria José Medeiros
Introdução:
Justificativa, interesse e apresentação do trabalho, seu campo de pesquisa, como foi feito o trabalho. Pode pesquisar e dizer o que é uma observação etnográfica (3 parágrafos).
Desenvolvimento
Relato do observado (Leve em consideração):
-Espaço (descrição do local, bairro, rua, cidade, tipo de espaço (rua, praça, quintal, sala de aula etc. com suas características específicas).
-Tipo de evento (aula, feira, dança, ritual religioso, etc.)
-Tempo (Há quanto tempo acontece o evento, periodicidade etc., dia, hora etc.)
-Como se dá o evento\acontecimento (organização)
Relatar\Observar:
- Tipos de pessoas (classe social, faixa etária etc.)
- Costumes, hábitos, tendências de grupos ou pessoas para conhecer a nós mesmos.
- Estudar as interações de todos os aspectos encontrados nas pessoas ou grupo;
- O observador deve ser parte do estudo: incluir-se subjetiva e objetivamente;
- Descrição: apresentação detalhada de lugares, pessoas e eventos numa narração;
- Conte a história; mostrar o lugar, personagens, objetos: permitir ao leitor de imaginar-se lá.
- Use os cinco sentidos (cheiros, tatos, escutas, sons, etc), isso é, descrever o que vê, sente, escuta, etc.
- Descrição do modo de pensar, sentir e fazer de determinado grupo, em determinado lugar e tempo.
- Procure identificar os principais elementos culturais de sua cidade, comunidade ou de um grupo em determinado local e tempo
Conclusão (3 Parágrafos):
A cotribuição deste estudo para sua maneira de ver a cultura, comportamento do outro. Sugestões, críticas etc.
Referências
Embora seja um trabalho de observação, voc~e deve usar no mínimo duas referências de pesquisa.
Observação
Mínimo 4 páginas.
Comece a observação, visite e interaja com o espaço e pessoas do seu objeto de estudo, tome nota, comece a redigir.
O trabalho será redigido em sala de aula. Mas a parte de observação será feita no espaço escolhido pelo pesquisador. Exceto se o espaço for na escola.
PS.: Grato à Professora Márcia Assunção pelas dicas dadas para este roteiro.
Modelo para Comunicação de Trabalhos
ESTRUTURA DA APRESENTAÇÃO
* Tempo: de 3 a 5 min.
1 – Título do Trabalho
2 – Objetivos e interesses pelo trabalho
3 – Metodologia [Como fez: que fonte\documento usou]
4 – Conclusão: O que concluiu\sugestões\dificuldades\aspectos positivos
5 – Fontes de pesquisa.
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